Minha jornada com amigurumis

Eu cheguei ao amigurumi num momento em que a mente inquieta não parava e, mesmo nos horários “livres”, eu sentia que nunca estava realmente presente. Com uma pandemia do coronavírus em andamento o isolamento e a apreensão foram os ingredientes que fizeram com que eu aprendesse algo novo para aliviar a tensão. E numa pesquisa na internet conheci os amigurumis. Não sabia se conseguiria, mas me propus a tentar. Eu e minha esposa começamos juntos: fazendo correntinha e alguns outros pontos básicos do crochê. Minha esposa parou e eu, sem imaginar o impacto que aqueles primeiros pontos teriam na minha vida, continuei praticando.

No começo, tudo era confuso: segurava a linha com força demais, perdia a contagem dos pontos, desmanchava e recomeçava diversas vezes. Mas em vez de desistir, percebi que justamente nesse ritmo de tentar, errar e refazer havia algo diferente: por alguns minutos, eu esquecia o resto e a mente se acalmava. Enquanto contava carreiras e ajustava a tensão do fio, minha atenção parecia se alinhar àquele pequeno círculo de pontos que crescia na palma da mão. Não importava se o dia tinha sido caótico; ali, naquele momento, existiam apenas agulha, linha e respiração.

Com o tempo, fui entendendo que o amigurumi exige um tipo de foco leve. Não é a concentração rígida, que vem acompanhada de autocobrança, mas uma presença curiosa: observar como o fio reage, reparar na regularidade dos pontos, aceitar que nem tudo vai ficar perfeito e, ainda assim, seguir em frente. A cada novo projeto, vou treinando a paciência – com o trabalho e comigo mesmo. Quando erro uma contagem, não é mais um fracasso; é apenas um convite para desacelerar, contar com calma e recomeçar.

A serenidade que o crochê traz não vem só do movimento repetitivo, quase meditativo, de laçar o fio. Ela também nasce da sensação de criar algo com as próprias mãos, ponto a ponto. Ver um personagem ganhar forma – primeiro uma esfera, depois o corpo, os bracinhos, os detalhes – me lembra que processos demorados podem ser belos. Nem sempre percebo a evolução no dia a dia, mas quando olho para um amigurumi pronto e me lembro de como eu fazia os primeiros, vejo claramente o quanto caminhei.

Hoje, o amigurumi se tornou um pequeno ritual de cuidado. Muitas vezes, de manhã principalmente, quando o dia inicia ainda no silêncio, sento, pego o novelo e a agulha e deixo que as mãos encontrem o ritmo. Em dias difíceis, pego um projeto simples, daqueles quase automáticos, só para acalmar a mente. Em dias mais leves, me arrisco em peças novas, que desafiam um pouco as minhas habilidades. Em todos eles, o crochê funciona como uma âncora: me traz de volta para o momento presente.

“Pontos de Serenidade” nasceu desse desejo de registrar esse caminho – não apenas a evolução técnica nos amigurumis, mas também o que muda dentro de mim a cada peça terminada.

Aqui, quero compartilhar não só o resultado final, mas também os bastidores: os erros, os recomeços, as dúvidas, as pequenas epifanias que surgem enquanto conto pontos. Este espaço é um diário aberto onde o fio do crochê se entrelaça com o fio da vida, e onde cada amigurumi é, ao mesmo tempo, um exercício de foco e um pequeno refúgio de calma.

Se você também encontrou no crochê um lugar de respiro – ou está buscando uma forma de cuidar melhor da própria mente – espero que, de alguma forma, minhas experiências ecoem nas suas. Que, entre um ponto e outro, a gente aprenda a ser mais gentil com o próprio tempo, com os próprios processos e com tudo o que estamos tecendo, por dentro e por fora. Afinal de contas o tempo voa e não sabemos o dia em que teceremos nosso último ponto. Um abraço do DIM!